Tecnologia na Educação, Ensino a Distância, e Aprendizagem Mediada pela
Tecnologia: Conceituação Básica
Eduardo O. C. Chaves
Neste artigo vou usar a expressão "Tecnologia na Educação" como o conceito básico, por ser o mais abrangente, mais preciso e, a meu ver, o mais correto de todos os que têm sido sugeridos.
"Tecnologia na Educação" é
expressão mais abrangente do que "Informática na Educação", que tradicionalmente
privilegia o uso de computadores em sala de aula, ou, mais recentemente, o uso
de computadores em rede para conectar a sala de aula com o mundo externo a ela,
através da Internet.
A expressão "Tecnologia na
Educação" abrange a Informática na Educação mas não se restringe a ela. Inclui,
também, o uso da televisão, do vídeo, e do rádio (e, por que não, do cinema) na
promoção da educação.
Mas neste artigo a expressão
"Tecnologia na Educação" é ainda mais abrangente. O termo "tecnologia", aqui, se
refere a tudo aquilo que o ser humano inventou, tanto em termos de artefatos
como de métodos e técnicas, para estender a sua capacidade física, sensorial,
motora ou mental, assim facilitando e simplificando o seu trabalho, enriquecendo
suas relações interpessoais, ou simplesmente lhe dando prazer.
Entre as tecnologias que o ser
humano inventou estão algumas que afetaram profundamente a educação: a fala
baseada em conceitos (e não apenas grunhidos ou a fala meramente denotativa), a
escrita alfabética, a imprensa (primeiramente de tipo móvel), e, sem dúvida
alguma, o conjunto de tecnologias eletro-eletrônicas que a partir do século
passado começaram a afetar nossa vida de forma quase revolucionária: telégrafo,
telefone, fotografia, cinema, rádio, televisão, vídeo, computador -- hoje todas
elas digitalizadas e integradas no computador.
É compreensível, diante do
impacto que essas novas tecnologias têm exercido sobre nossas vidas, que
pensemos quase que exclusivamente nelas quando falamos em "tecnologia na
educação". No entanto, não podemos nos esquecer de que a educação continua a ser
feita predominantemente pela fala e pela escrita (especialmente, neste caso,
pelo texto impresso), e que a fala, a escrita e o texto impresso são, e vão
sempre continuar a ser, tecnologias fundamentais para a educação (tanto em suas
modalidades presenciais como nas remotas). Este artigo não quer perder isto de
vista. Na realidade, um de seus objetivos principais é que os educadores
percebam que já usam diversas tecnologias no seu trabalho educacional. É apenas
por terem se tornado tão familiares que essas tecnologias passaram a ser quase
transparentes, invisíveis, certamente inconspícuas.
Acho a expressão "Tecnologia
Educacional" profundamente inadequada (a ABT [Associação Brasileira de
Tecnologia Educacional] que me desculpe). A tecnologia, em si, não é educacional
-- nem anti-educacional. Ela pode ser usada na educação, e de diversas maneiras.
Mas isso não a torna educacional ou educativa. Por isso, prefiro a expressão
"Tecnologia na Educação".
Igual observação se aplica às
expressões "Informática Educacional", "Informática Educativa", "Informática
Pedagógica", etc. Prefiro a expressão "Informática Aplicada à Educação", que
usei quando criei o Núcleo de Informática Aplicada à Educação (NIED) da UNICAMP
em 1983.
Hoje em dia essas expressões
estão sendo usadas o tempo todo e, algumas vezes, abusadas -- às vezes em suas
versões em inglês: "Distance Education", "Distance Learning", etc.
Já argumentei, em vários locais,
que considero as duas primeiras expressões -- "Educação a Distância" e
"Aprendizagem a Distância" -- totalmente inadequadas. A educação e a
aprendizagem são processos que acontecem, de certo modo, dentro da pessoa -- não
há como possam ser realizados a distância. Tanto a educação como a aprendizagem
(com a qual a educação está conceitualmente vinculada) acontecem onde quer que
esteja o indivíduo que está se educando ou aprendendo -- não há como fazer, nem
sequer entender, "teleeducação" e "teleaprendizagem". (Vide adiante).
Ensinar a distância, porém, é
perfeitamente possível e, hoje em dia, ocorre o tempo todo -- como, por exemplo,
quando aprendemos através de um livro que foi escrito para nos ensinar alguma
coisa, ou assistimos a um filme, um programa de televisão, ou um vídeo que foram
feitos para nos ensinar alguma coisa, etc. A expressão "ensino a distância" faz
perfeito sentido aqui porque quem está ensinando -- o "ensinante" -- está
"espacialmente distante" (e também distante no tempo) de quem está aprendendo --
o "aprendente". (O termo "distância" foi originalmente cunhado para se referir
ao espaço, mas pode igualmente bem ser aproveitado para se referir ao tempo).
Tradicionalmente, fazia-se ensino
a distância através de cartas (as epístolas do Novo Testamento são didáticas, e,
portanto, exemplos de ensino a distância) e de livros (especialmente depois que
começaram a ser impressos) -- ou seja, com baixa tecnologia. Com as novas
tecnologias eletro-eletrônicas, especialmente em sua versão digital, unidas às
tecnologias de telecomunicação, agora também digitais, abre-se para o ensino a
distância uma nova era, e o ensino passa a poder ser feito a distância em escala
antes inimaginável e pode contar ainda com benefícios antes considerados
impossíveis nessa modalidade de ensino: interatividade e até mesmo
sincronicidade.
Por isso, ensino a distância
certamente é (como sempre foi) uma forma de usar a tecnologia na promoção da
educação. (Porque a educação e a aprendizagem, embora aconteçam dentro do
indivíduo, e, portanto, não possam ser feitas a distância, podem, e devem, ser
mediadas através dos contatos do indivíduo com o mundo que o cerca, em especial,
através de seu contato com outras pessoas, seja esse contato "cara a cara" ou
"remoto" ("virtual", no sentido de que não envolve a "contigüidade
espaço-temporal" das duas pessoas).
Tenho lido alguns absurdos sobre
o tema recentemente. Em livro publicado no ano passado (1998) pela Editora
Vozes, sob o título Questões para a Teleducação, Pedro Demo afirma que os
partidários do uso da tecnologia no ensino a distância parecem acreditar que a
distância, em si, se reveste de valor educacional. Duvido que ele tenha uma
referência bibliográfica sequer (nas centenas que espalha por seu livro) que
comprove que algum defensor do uso da tecnologia na educação, ainda que afoito,
tenha reivindicado valor educacional ou mérito pedagógico para a distância em
si. Até me surpreende que alguém do gabarito de Pedro Demo possa chegar ao
extremo de fazer uma alegação desse tipo, tão absurda.
O que os defensores do uso da
tecnologia na educação têm dito, em defesa do ensino a distância, é que a
tecnologia permite que a distância deixe de ser fator limitante no ensino, pois
viabiliza o ensino sem necessidade de contigüidade espaço-temporal, algo de
resto totalmente óbvio. O máximo a que os defensores do ensino a distância podem
ter chegado em seu entusiasmo é a afirmação de que algumas formas de ensino a
distância oferecem vantagens em relação ao ensino presencial, realizado em salas
de aula convencionais -- algo que também não é difícil de crer verdadeiro, dada
a pobreza da interação que ocorre na maioria das salas de aula, seja em escolas,
seja em departamentos de treinamento das empresas e outras instituições.
Já que o livro de Pedro Demo tem
o título de "Teleducação", é bom que se critique essa expressão. A expressão "teleducação"
é, etimologicamente, sinônima de "educação a distância" -- e, portanto, padece
dos mesmos vícios desta, já apontados. Mas é uma expressão ainda mais inadequada
do que "educação a distância", por sugerir aos desavisados que "teleducação" tem
que ver com "educação pela televisão". Na verdade, o próprio Petro Demo não raro
cai vítima da expressão que usa para dar título ao seu livro, pressupondo que
teleducação tem que ver, necessariamente, com educação via imagens e não com
educação via palavras ou via textos. Teleducação, no sentido original e
etimológico da expressão, pode ser perfeitamente bem realizada através de
palavras (pelo rádio, por exemplo) ou por textos impressos (pelo computador),
nada havendo na expressão que forçosamente inclua a referência a imagens -- a
não ser para os desavisados, que associam o "tele" da expressão a "televisão" e
não a "distância". Quem lê o livro de Demo fica com a nítida impressão de que,
para ele, o modelo de "teleducação" é o "telecurso" popularizado pela Fundação
Roberto Marinho e pela FIESP. Os partidários do ensino a distância hoje,
entretanto, estão muito longe do modelo "telecurso", privilegiando muito mais os
recursos didáticos que a Internet tornou possível (em especial a Web, o chat, o
correio eletrônico e a lista de discussão).
Gostaria de sugerir, por fim, que
a expressão que dá título a esta seção representa bem melhor a tendência atual
da Tecnologia na Educação do que o Ensino a Distância (EAD).
Não resta dúvida de que a
educação pode acontecer através do ensino, e que este pode ser feito a
distância. Também não resta dúvida, porém, que a educação pode acontecer através
da autoaprendizagem, da aprendizagem que não é provocada por nenhum processo de
ensino, mas que acontece através das interações de uma pessoa com a natureza,
com outras pessoas e com o meio cultural em que vive. Grande parte de nossa
aprendizagem acontece dessa forma, e, segundo alguns estudiosos da aprendizagem,
a aprendizagem que assim ocorre é mais significativa (acontece com mais
facilidade, é retida por mais tempo, é mais facilmente transferida para outros
domínios e contextos, etc.) do que a aprendizagem que decorre de processos
formais e deliberados de ensino (i.e., através da instrução).
O que fascina nas novas
tecnologias à nossa disposição, em especial na Internet, e dentro da Internet na
Web, não é o fato de que podemos ensinar a distância com o auxílio delas: é que
elas nos permitem criar ambientes ricos em possibilidades de aprendizagem em que
pessoas interessadas e motivadas podem aprender quase qualquer coisa sem
precisar se tornar vítimas de um processo de ensino formal e deliberado -- uso o
termo "vítimas" aqui num sentindo intencionalmente provocador. A aprendizagem,
neste caso, é mediada pela tecnologia apenas.
Não resta dúvida de que por trás
da tecnologia há outros indivíduos, que prepararam materiais e os tornaram
disponíveis na rede. Mas quando alguém usa os recursos hoje disponíveis na
Internet para aprender de forma explorativa, automotivada, ele usa materiais de
natureza a mais diversa, preparados e disponibilizados em momentos e contextos
os mais variados, não raro sem nenhuma intenção didática, numa ordem totalmente
imprevisível e, portanto, não planejada, e num ritmo próprio, regulado apenas
pelo desejo de aprender e pela capacidade de assimilar e digerir o que se
encontra pela frente. Por isso, não acho viável chamar essa experiência de
ensino a distância, como se fosse a Internet que ensinasse, ou como se fossem as
pessoas que estão por trás dos materiais que ensinassem. Trata-se, a meu ver, de
aprendizagem mediada pela tecnologia, aprendizagem não decorrente do ensino,
autoaprendizagem.
Proponho, portanto, que as
principais categorias em que se pode classificar o uso da tecnologia na educação
hoje sejam:
· Em apoio ao ensino presencial
· Em apoio ao ensino a distância
· Em apoio à autoaprendizagem
Há uma conexão conceitual entre
educação e aprendizagem: não há educação sem que ocorra aprendizagem. (Ou,
invertendo, se não houver aprendizagem, não haverá educação).
A aprendizagem, por seu lado,
pode resultar de um processo "de fora para dentro" (como o ensino) ou de um
processo gerado "de dentro para fora" (autoaprendizagem, ou aprendizagem não
decorrente do ensino). (Considero pacífico que aprendemos muitas coisas sem que
alguém nô-las ensine).
Tanto o ensino como a
aprendizagem são conceitos moralmente neutros. Podemos ensinar e aprender tanto
coisas valiosas como coisas sem valor ou mesmo nocivas.
A educação, porém, não é um
conceito moralmente neutro. Educar (alguém ou a si próprio) é, por definição,
fazer algo que é considerado moralmente correto e valioso. Usamos outros
conceitos para nos referir a processos de certo modo parecidos com a educação
mas que não são moralmente aprovados, como, por exemplo, doutrinação. (Vide,
neste contexto, um velho artigo meu, “Filosofia da Educação e a Análise de
Conceitos Educacacionais”, escrito em 1977 para o livro Introdução Teórica e
Prática às Ciências da Educação, organizado por Antonio Muniz de Rezende, e
publicado pela Editora Vozes, agora disponível na Internet, em versão revista e
ampliada, no endereço http://www.chaves.com.br/textself/philos/filed77-2.htm).
A aprendizagem é um processo que
ocorre dentro do indivíduo. Mesmo quando a aprendizagem é decorrente de um
processo bem-sucedido de ensino, ela ocorre dentro do indivíduo, e o mesmo
ensino que pode resultar em aprendizagem em algumas pessoas pode ser totalmente
ineficaz em relação a outras.
Por causa disso, e do nexo
conceitual entre educação e aprendizagem, tem havido autores que negam
(contrariamente ao que afirma o senso comum) que possamos educar uma outra
pessoa. Paulo Freire mesmo, em Pedagogia do Oprimido, afirma que "ninguém educa
ninguém" – embora acrescente que ninguém se educa sozinho. Segundo essa visão, a
educação, como a aprendizagem, de que ela depende, é um processo que ocorre
dentro do indivíduo, e, que, portanto, só pode ser gerado pela própria pessoa
(ainda que em interação com os seus semelhantes, com a natureza, com a cultura
ao seu redor).
Mesmo que admitamos, porém, que a
educação possa ser decorrente do ensino, a aprendizagem continua sendo algo que
se passa dentro da pessoa.
Por isso, prefiro dizer que o que
pode ocorrer a distância é o ensino, não a educação ou a aprendizagem: estas
ocorrem sempre dentro do indivíduo e, portanto, não podem ser "remotizadas". O
ensino, entretanto, pode. Daqui para frente, portanto, vou falar apenas em
Ensino a Distancia (EAD), nunca em Educação a Distância ou Aprendizagem a
Distância, que são expressões que, para mim, não fazem sentido.
O ensino (presencial ou a
distância) é uma atividade triádica que envolve três componentes: aquele que
ensina (o ensinante), aquele a quem se ensina (vamos chamá-lo de aprendente), e
aquilo que o primeiro ensina ao segundo (digamos, um conteúdo). (Vide, nesse
contexto, o meu artigo de 1977, já mencionado, para uma exposição mais
detalhada).
EAD, no sentido fundamental da
expressão, é o ensino que ocorre quando o ensinante e o aprendente (aquele a
quem se ensina) estão separados (no tempo ou no espaço). No sentido que a
expressão assume hoje (vamos chamá-lo de sentido atual), enfatiza-se mais (ou
apenas) a distância no espaço e se propõe que ela seja contornada através do uso
de tecnologias de telecomunicação e de transmissão de dados, voz (sons) e
imagens (incluindo dinâmicas, isto é, televisão ou vídeo). Não é preciso
ressaltar que todas essas tecnologias, hoje, convergem para o computador.
No sentido fundamental da
expressão, entretanto, EAD é algo bastante antigo. Nesse sentido fundamental,
como vimos, EAD é o ensino que ocorre quando o ensinante e o aprendente (aquele
a quem se ensina) estão separados (no tempo ou no espaço). Obviamente, para que
possa haver EAD, mesmo nesse sentido fundamental, é necessário que ocorra a
intervenção de alguma tecnologia.
A primeira tecnologia que
permitiu o EAD foi a escrita. A tecnologia tipográfica, posteriormente, ampliou
grandemente o alcance de EAD. Mais recentemente, as tecnologias de comunicação e
telecomunicações, especialmente em sua versão digital, ampliaram ainda mais o
alcance e as possibilidades de EAD.
A invenção da escrita
possibilitou que as pessoas escrevessem o que antes só podiam dizer e, assim,
permitiu o surgimento da primeira forma de EAD: o ensino por correspondência.
Como já mencionei, as epístolas do Novo Testamento (destinadas a comunidades
inteiras), que possuem nítido caráter didático, são claros exemplos de EAD. Seu
alcance, entretanto, foi relativamente limitado – até que foram transformadas em
livros.
O livro é, com certeza, a
tecnologia mais importante na área de EAD antes do aparecimento das modernas
tecnologias eletro-eletrônicas, especialmente as digitais. Com o livro (mesmo
que manuscrito) o alcance do EAD aumentou significativamente em relação à carta.
Com o aparecimento da tipografia,
entretanto, o livro impresso (em contraposição ao livro manuscrito) aumentou
exponencialmente o alcance do EAD. Especialmente depois do aparecimento dos
sistemas postais modernos, rápidos e confiáveis, o livro tornou-se o foco do
ensino por correspondência, que deixou de ser epistolar.
Mas o livro, seja manuscrito,
seja impresso, representa o segundo estágio do EAD, independentemente de estar
envolvido no ensino por correspondência, pois ele pode ser adquirido em
livrarias e através de outros canais de distribuição. Com o livro impresso
temos, portanto, a primeira forma de EAD de massa.
O surgimento do rádio, da
televisão e, mais recentemente, o uso do computador como meio de comunicação
vieram dar nova dinâminca ao ensino à distância. Cada um desses meios introduziu
um novo elemento ao EAD:
O rádio permitiu que o som (em
especial a voz humana) fosse levado a localidades remotas. Assim, a parte sonora
de uma aula pode, com o rádio, ser remotizada. O rádio está disponível desde o
início da década de 20, quando a KDKA de Pittsburgh, PA, tornou-se a primeira
emissora de rádio comercial a operar.
A televisão permitiu que a imagem
fosse, junto com o som, levada a localidades remotas. Assim, agora uma aula
quase inteira, englobando todos os seus componentes audiovisuais, pode ser
remotizada. A televisão comercial está disponível desde o final da década de 40.
O computador permitiu que o texto
fosse enviado com facilidade a localidades remotas ou fosse buscado com
facilidade em localidades remotas. O correio eletrônico permitiu que as pessoas
se comunicassem assincronamente mas com extrema rapidez. Mais recentemente, o
aparecimento de "chats" ou "bate-papos" permitiu a comunicação síncrona entre
várias pessoas. E, mais importante, a Web permitiu não só que fosse agilizado o
processo de acesso a documentos textuais, mas hoje abrange gráficos,
fotografias, sons e vídeo. Não só isso, mas a Web permitiu que o acesso a todo
esse material fosse feito de forma não-linear e interativa, usando a tecnologia
de hipertexto. O primeiro computador foi revelado ao mundo em 1946, mas foi só
depois do surgimento e do uso maciço de microcomputadores (que apareceram no
final de 1977) que os computadores começaram a ser vistos como tecnologia
educacional. A Internet, embora tenha sido criada em 1969, só explodiu no
mercado mesmo nos últimos cinco anos, quando foi aberta para uso comercial (pois
antes servia apenas a comunidade acadêmica).
A convergência de todas essas
tecnologias em um só mega-meio de comunicação, centrado no computador, e,
portanto, interativo, permitiu a realização de conferências eletrônicas
envolvendo componentes audiovisuais e textuais.
Não faço sequer referência, neste
contexto, ao uso no EAD de livros impressos, fax, video-cassetes, CD-ROMs,
fotografias e slides convencionais, e correio não-eletrônico, por se tratar de
tecnologias complemente ultrapassadas pelas suas contrapartidas eletrônicas no
que diz respeito ao EAD.
Não resta dúvida, portanto, de
que o EAD é hoje possível em uma escala nunca antes imaginada. Mas nem tudo que
é possível vale a pena fazer. Por isso, vamos discutir a justificativa de EAD no
contexto atual.
Esta pergunta pode parecer até
desnorteante para algumas pessoas (que a ela responderiam com um simples "Por
que não?"), mas há boas razões para discuti-la.
De um lado há aqueles que
pressupõem que EAD não difere substancialmente do ensino presencial. Por isso,
argumentam que, se o ensino presencial é bom, e é possível ensinar a distância,
então devemos nos valer dessa oportunidade .
Por outro lado, porém, há aqueles
que vêm vantagens no EAD em relação ao ensino presencial: maior alcance, razão
custo/benefício mais favorável, e, principalmente, maior flexibilidade (tanto
para os ensinantes quanto para os aprendentes), visto que acreditam na
possibilidade de personalização do EAD em nível tal que chegue até a
individualização.
Contrapondo-se a essas duas
posições favoráveis ao EAD, há aqueles que acham que no EAD se perde a dimensão
pessoal que, se não necessária ao ensino em si, é essencial ao ensino eficaz.
Deixando de lado, no momento, a
segunda posição, há uma contradição óbvia entre a primeira posição e a terceira,
na justa medida em que os defensores da primeira pressupõem que não haja
diferenças substantivas entre EAD e ensino presencial (o caráter "virtual" do
EAD não sendo considerado uma diferença suficientemente importante), enquanto os
defensores da terceira acreditam que a virtualidade (ou caráter remoto) do EAD
remove da relação de ensino algo importante, ou mesmo essencial: o seu caráter
de pessoalidade, que seria, em sua opinião, o que lhe dá eficácia.
Quem tem razão nesse debate?
Tendo a concordar mais, mas de
forma qualificada, com a primeira posição. Como vimos, o ensino é uma atividade
triádica que envolve três componentes: aquele que ensina (o ensinante), aquele a
quem se ensina (o aprendente), e aquilo que o primeiro ensina ao segundo
(digamos, um conteúdo qualquer). Para que o ensinante ensine o conteúdo ao
aprendente não é hoje necessário que estejam em proximidade espaço-temporal, ou
seja, que estejam no mesmo espaço e no mesmo tempo.
Sócrates insistia (contra o
ensino baseado na escrita) que a contigüidade espaço-temporal do ensinante e do
aprendente é essencial ao ensino eficaz porque ele desconhecia os meios de
telecomunicação. Por isso acreditava que o ensino baseado na escrita (que, como
vimos, é uma forma de EAD) impedia que houvesse diálogo, pergunta-e-resposta,
real comunicação pessoal entre os envolvidos. Isso não é mais verdade hoje.
O caráter "pessoal" de um
relacionamento, hoje, independe da proximidade no espaço e no tempo. É possível,
atualmente, manter relacionamentos extremamente pessoais, e mesmo íntimos, a
distância, usando os meios de comunicação disponíveis, que envolvem o texto, o
som, e a imagem (estática e em movimento). Por outro lado, a mera contigüidade
espaço-temporal não garante que um relacionamento seja pessoal. As classes
enormes que existem em algumas escolas levam a um relacionamento extremamente
impessoal, apesar da proximidade no espaço e no tempo. Muitas vezes, nesses
contextos, o ensinante nem sequer sabe o nome de seus aprendentes, e desconhece
totalmente as suas características individuais, que são extremamente relevantes
para um ensino eficaz.
Isto posto, gostaria de
introduzir a qualificação que disse existir na minha concordância com a primeira
posição. Caeteris paribus, a comunicação presencial, "olho no olho", em que se
pode facilmente detectar as nuances da expressão sonora não verbal (o tom, o
timbre e o volume da voz, o ritmo da fala, as pausas, as ênfases sutis) e da
linguagem corporal (especialmente as expressões faciais [nas quais o olhar
talvez seja a característica mais significativa]), mas também a postura, a
posição das mãos, dos braços e das pernas, a possibilidade de contato físico,
etc.), é mais eficaz para o ensino do que a comunicação remota, ainda que se
faça uso de todos os recursos que as tecnologias atuais colocam à nossa
disposição.
(Esta consideração é importante
para algo que pretendo demonstrar mais adiante, a saber: que se um modelo de
ensino não funciona nas melhores condições de comunicação, o que nos faz esperar
que funcione quando as condições são menos favoráveis?)
Consideremos, agora, a segunda
posição descrita atrás, a saber, a que afirma que há vantagens no EAD em relação
ao ensino presencial. Se essa tese estiver correta, pode muito bem dar-se o caso
de que as vantagens do EAD compensem (ou, até mesmo, mais do que compensem) a
desvantagem que acabei de apontar.
Atrás indicamos que os que
defendem a tese de que o EAD é superior ao ensino presencial apontam para o seu
maior alcance, sua razão custo/benefício mais favorável, sua flexibilidade maior
(tanto para os ensinantes quanto para os aprendentes), e à possibilidade de
personalização do ensino em nível tal que chegue até a individualização.
Não resta a menor dúvida de que o
EAD tem maior alcance do que o ensino presencial. Por mais que se critiquem os
Telecursos da Fundação Roberto Marinho/FIESP, não há como duvidar do fato de que
eles alcançam muito mais pessoas, com os mesmos investimentos e recursos, do que
se fossem ministrados presencialmente. O mesmo se pode dizer (embora em grau
ainda menor) em relação a cursos ministrados pela Internet.
Quanto à razão custo/benefício a
questão é um pouco mais difícil de decidir.
O custo de desenvolvimento de
programas de EAD de qualidade (que envolvam, por exemplo, televisão ou mesmo
vídeo, ou que envolvam o uso de software especializado) é extremamente alto.
Além disso, sua distribuição,
oferecimento e ministração (ou "entrega", termo que traduz literalmente o Inglês
"delivery") também têm um custo razoável. Se eles forem distribuídos através de
redes de televisão comerciais o custo de transmissão pode ser ainda mais alto do
que o custo de desenvolvimento, com a desvantagem de ser um custo recorrente.
Por isso, esses programas só
oferecem uma razão custo/benefício favorável se o seu alcance for realmente
significativo (atingindo um público, talvez, na casa dos milhões de pessoas).
É verdade que o custo de
desenvolvimento pode ser rateado pelos vários oferecimentos ou ministrações
("deliveries"). Um programa de EAD bem feito pode ser oferecido e ministrado
várias vezes sem que isso afete o custo de desenvolvimento. O único componente
de custo afetado pelo oferecimento e ministração recorrente de um programa de
EAD é o de distribuição (entrega), fato que torna o custo de desenvolvimento
proporcionalmente mais barato, por oferecimento e ministração, à medida que o
número de oferecimentos e ministrações aumenta. Se o custo de entrega for alto,
porém, essa redução proporcional do custo de desenvolvimento ao longo do tempo
pode não ser tão significativa.
Muitas das instituições
interessadas em EAD hoje estão procurando "atalhos" que reduzam o custo de
desenvolvimento. Infelizmente isso dificilmente se dá sem que haja uma redução
na qualidade. Em vez de usar meios de comunicação caros, como televisão e vídeo,
essas instituições empregam predominantemente texto no desenvolvimento do curso
e o distribuem através da Internet (com um custo relativamente pequeno, tanto no
desenvolvimento como na entrega). Além disso, para não aumentar o custo de
desenvolvimento, o texto é muito pouco trabalhado, consistindo, muitas vezes, de
textos que não foram elaborados com esse tipo de uso em mente, mas sim para ser
publicados em forma impressa. Desta forma, o EAD acaba não passando de um ensino
por correspondência em que os textos são distribuídos pela Internet e não pelo
correio convencional.
É verdade que freqüentemente se
procura agregar algum valor aos textos disponibilizados oferecendo-se aos
aprendentes a possibilidade de se comunicarem com o ensinante, com o autor do
texto (caso não seja ele o ensinante) ou mesmo uns com os outros via e-mail (correio
eletrônico) ou chat (bate-papo eletrônico). (E-mail é uma forma de comunicação
assíncrona, enquanto o chat é uma forma de comunicação síncrona).
Quando o EAD é entendido apenas
como disponibilização remota de textos, ainda que acompanhado por e-mail e chat,
é de crer que a sua razão custo/benefício, quando comparada à do ensino
presencial, seja bastante favorável – mas há uma potencial queda de qualidade no
processo.
É preciso registrar aqui,
entretanto, que, se os textos disponibilizados forem preparados para se adequar
ao meio, sendo enriquecidos por estruturas de hipertexto, anotações, comentários,
glossários, mapas de navegação, referências (links) para outros textos
igualmente disponíveis, que possam servir como como discussões ou complementos
dos textos originais, a eficácia de EAD aumenta consideravelmente.
Dado o fato de que EAD usa
tecnologias de comunicação tanto síncronas como assíncronas, não resta dúvida de
que, no caso das últimas, tanto os ensinantes como os aprendentes têm maior
flexibilidade para determinar o tempo e o horário que vão dedicar, uns ao ensino,
os outros à aprendizagem. Recursos como páginas Web, bancos de dados, correio
eletrônico, etc. estão disponíveis 24 horas por dia sete dias por semana, e, por
isso, podem ser usados segundo a conveniência do usuário.
É neste ponto que os defensores
de EAD colocam maior ênfase. Eis o que diz Octavi Roca, no artigo "A
Autoformação e a Formação à [sic] Distância: As Tecnologias da Educação nos
Processos de Aprendizagem", publicado no livro Para Uma Tecnologia Educacional,
organizado por Juana M. Sancho (ArtMed, Porto Alegre, 1998):
"Na maioria dos profissionais da
educação já existe a consciência de que cada pessoa é diferente das outras, que
cada uma tem as suas necessidades próprias, seus objetivos pessoais, um estilo
cognitivo determinado, que cada pessoa usa as estratégias de aprendizagem que
lhe são mais positivas, possui um ritmo de aprendizagem específico, etc. Além
disso, quando se trata de estudantes adolescentes ou adultos, é preciso
acerescentar novos elementos, como as diferentes disponibilidaddes horárias, as
responsabilidades adquiridas ou o aumento da capacidade de determinação pessoal
de necessidades e objetivos. Assim parece óbvio que é preciso adaptar o ensino a
todos estes fatores.
Esta reflexão não é nova. As
diferenças sempre têm sido reconhecidas. Mas, antes, eram vistas como um
problema a ser eliminado, uma dificuldade a mais para o educador. Em uma fase
posterior, considerava-se que esta diversidade devia ser considerada e isso já
bastava. No entanto, agora se considera que é a partir daí que devemos organizar
a formação e é nos traços diferenciais que devemos fundamentar a tarefa de
formação: as capacidades de cada pessoa representam uma grande riqueza que é
conveniente aproveitar.
Parece que, neste caso, na
inovação que isto tudo representa, agirão em conjunto, tanto aqueles que se
dedicam à pesquisa dos aspectos mais teóricos como aqueles que têm
responsabilidades diretas na atividade de formação. Estes dois grupos, às vezes
com pouca comunicação entre si, começam a mostrar um interesse convergente no
trabalho dirigido a proporcionar uma formação cada vez mais adaptada a cada
pessoa em particular" [p.185].
Seria possível implementar essas características desejáveis que aqui se atribuem ao EAD em programas de ensino presencial? À primeira vista, parece possível, mas é forçoso reconhecer que é difícil -- a menos que a escola seja, de certo modo, reinventada .
Ou vejamos.
A escola (como hoje a conhecemos)
não pode seriamente levar em consideração as necessidades, os interesses, o
estilo e o ritmo próprio de aprendizagem de cada aluno, de modo a proporcionar a
cada um uma formação adaptada a ele, porque esse tipo de ensino personalizado e
individualizado se choca com o pressuposto básico da escola, a saber: a
padronização.
Esperar da escola que produza
formação adaptada às necessidades, aos interesses, ao estilo e ao ritmo de
aprendizagem próprio de cada um de seus alunos é equivalente a esperar que de
uma linha de montagem convencional de uma fábrica de automóveis saiam carros
personalizados e individualizados para cada um dos clientes que vai adquiri-los.
Não dá: a linha de montagem, como a conhecemos, foi feita para padronizar, para
permitir que sejam feitos, com rapidez e eficiência, carros iguais, na verdade
basicamente idênticos. A escola que conhecemos foi inventada para fazer algo
semelhante em relação aos seus alunos: nivelá-los, dando-lhes uma formação
padronizada básica, de modo que todos, ao se formar, tenham se tornado tão
parecidos uns com os outros a ponto de se tornarem funcionalmente
intercambiáveis. Qualquer grau de diferenciação que os alunos preservem ao final
de sua escolaridade terá sido mantido a despeito da escola, não como decorrência
de seu trabalho .
A escola, como a conhecemos,
representa um modelo de promoção da educação calcado no ensino, que foi criado
para a sociedade industrial (em que a produção em massa era essencial) e que não
se adapta bem à sociedade da informação e do conhecimento – na verdade é um
obstáculo a ela.
Esse modelo está ultrapassado e
não é difícil explicar porquê.
Esse modelo é calcado no ensino.
O ensino, como vimos, é uma atividade triádica, que envolve o ensinante, o o
aprendente e o conteúdo que o primeiro ensina ao segundo. A escola prioriza,
nessa tríade, o conteúdo (o currículo) e, conseqüentemente, o ensinante,
deixando o aprendente em último lugar. Por isso a escola é tipicamente "conteúdo-cêntrica"
e, por causa disso, "magistro-cêntrica", enquanto a tendência descrita atrás (voltada
para a flexibilidade e adaptada às necessidades, aos interesses, estilo e ritmo
de aprendizagem de cada um) é "mateto-cêntrica", isto é, centrada no aprendente.
Em função disso a escola é um
ambiente de aprendizagem totalmente estruturado e padronizado, segundo o modelo
da linha de montagem: todo mundo começa a trabalhar na mesma hora, desenvolve
atividades pré-determinadas em uma seqüência pré-especificada em plano de
produção (currículo), seguindo um cronograma (horário) imposto, pára de
trabalhar na mesma hora, e não tem liberdade para decidir que seria preferível
estar fazendo outra coisa (mesmo que seja trabalho diferente, não lazer).
Indo além do modelo fabril, a
escola espera que todos os seus alunos iniciem seus estudos com a mesma idade,
para poder padronizar os grupos de alunos (classes), tanto quanto possível, por
faixa etária. Conseqüentemente, a escola não pode levar em conta (pelo menos
muito seriamente) as diferenças individuais de interesse (motivação), aptidão,
capacidade, estilo e ritmo de aprendizagem. Em regra, a criança tem que ser
alfabetizada aos 6/7 anos. Se ela é mais vagarosa, fica estigmatizada. Se é mais
rápida, azar dela, tem que ficar parada (e quieta) esperando os outros. Se ela
gosta de aprender passivamente, ouvindo e lendo, ótimo, a escola até que lhe
serve bem. Se ela gosta de aprender ativamente, explorando, fuçando, mexendo,
tocando, abrindo, deve se cuidar, porque a escola pode lhe ser cruel.
Por fim, para poder colocar na
sociedade um "produto padronizado" a escola tende a concentrar a atenção no "aluno
médio", negligenciando tanto os mais fracos como os mais fortes! Na verdade, os
alunos melhores são os mais prejudicados, porque mais importante do que produzir
alunos excepcionalmente bons é evitar que sejam colocados na sociedade "produtos
defeituosos". Assim, se um aluno é excepcionalmente bom em artes mas não se dá
muito bem com matemática, a professora vai (prevavelmente) dizer pra mãe: seu
filho precisa se concentrar mais em matemática, ele está muito fraco; em casa,
cuide que ele gaste mais tempo com a lição de matemática e não com os desenhos,
que já faz bem. Provavelmente esse procedimento está matando um artista e
criando uma pessoa que detesta matemática. A mesma coisa com uma aluna: ela
escreve bem, compõe poemas, escreve pequenos contos, etc., mas não suporta
ciências. A escola vai tentar lhe impor as ciências de que ela não gosta em vez
de promover o amor às letras que a motivam.
Portanto, o que não funciona mais,
na escola que hoje conhecemos, não é o seu caráter presencial, o fato de que o
professor está lá, junto dos alunos, vendo que o um aluno tem até dor de barriga
quando começa a aula de matemática, e que uma aluna, tão boa na aula de
português, fica com uma cara de enterro quando o assunto é ciências. O fato de
que o professor está lá é, em si, bom, pois o professor é capaz de perceber que
os alunos são diferentes, têm necessidades, interesses, aptidões, e capacidades
diferentes, aprendem em estilos e ritmos distintos. O que nem ele nem a escola
sabe fazer é resolver o problema, pois o professor tem 30 (ou mais) alunos na
classe, tem que cumprir um programa curricular padronizado e obrigatório, tem o
diretor e supervisor pedagógico nas costas, tem que atender aos alunos lentos
demais sem deixar que os alunos médios e os rápidos demais se tornem desatentos
e desinteressados ou mesmo caiam na indisciplina. A presença do professor na
sala de aula é algo bom. É o modelo que não mais funciona.
Tendo lidado com o aspecto mais
difícil da flexibilidade podemos tratar rapidamente o outro aspecto: a
flexibilidade nos horários de atendimento. Neste caso, a escola nem tenta
implementar atendimento pessoal e individualizado no horário mais conveniente
para o aluno. Ela deixaria de ser escola, como a conhecemos, se tentasse fazer
isso.
Tendo perguntado se a escola,
como a conhecemos, consegue realizar os objetivos de flexibilidade atrás
descritos, e respondido negativamente, precisamos agora perguntar se é possível
realizá-los através de EAD.
Comecemos por registrar que o
objetivo de flexibilidade no horário de atendimento parece ser facilmente
alcançável pelo EAD, posto que os alunos não precisam, em regra, estar todos
juntos, num mesmo local, ao mesmo tempo. (É bem verdade que no caso de
atividades síncronas, como chats e vídeo-conferências, exige-se a presença de
todos, num mesmo horário, em locais nos quais possam ter acesso a tecnologia que
lhes permita participar das atividades). O problema aqui está basicamente
resolvido, nesse aspecto.
A questão é bem mais complexa,
porém, quando se trata da flexibilidade dos programas. Os programas de EAD hoje
existentes são predominantemente padronizados. Na verdade, são tão padronizados
quanto os programas de ensino ministrados presencialmente, que eles
intencionalmente copiam.
Ora, sabendo que o modelo
padronizado não funciona, nem mesmo quando o professor está presente junto do
aluno, como podemos esperar que, de repente, como que por passe de mágica,
aquilo que não funciona presencialmente passe a funcionar remota ou "virtualmente"?
Tenho um catálogo de milhares de
cursos a distância oferecidos, nos Estados Unidos e no Canadá, por 850
instituições acreditadas de ensino superior . Todos eles, sem exceção, são
tentativas de ministrar, remotamente, cursos absolutamente idênticos aos
ministrados presencialmente. As regras são absolutamente as mesmas: o aluno
precisa se matricular em um curso específico, pagar uma taxa que varia de 100 a
500 dólares por crédito, ficar matriculado durante um certo tempo (geralmente um
semestre, embora haja cursos mais curtos), ler materiais escritos (que recebe ou
a que acede, e que, em regra, não foram estruturados para leitura on-line,
seguindo o modelo hipertexto), discuti-los com o professor e os colegas (por
e-mail ou chat), submeter trabalhos ("papers"), fazer provas, e, ao final,
receber uma nota, que determina se ele foi aprovado ou não. Se foi aprovado,
recebe um certificado ou um diploma. Algumas universidades até se vangloriam de
que o certificado ou diploma fornecido nem sequer menciona o fato de que o curso
foi feito a distância.
Os cursos existentes não oferecem
nem mesmo vantagens de preço. Para obter um diploma (MBA, por exemplo), algumas
universidades requerem que o aluno complete no mínimo 48 créditos a um preço
médio de 500 dólares por crédito (o que faz com que o MBA saia por até 24 mil
dólares, havendo pelo menos um que custa 50 mil), passe um exame de língua
estrangeira (mesmo que esteja fazendo o curso já numa língua para ele
estrangeira!), etc. Vi o cúmulo de uma Universidade (infelizmente, minha alma
mater, a University of Pittsburgh) que cobra dos alunos cerca de 150 dólares por
crédito, se eles moram no estado em que está a universidade (Pennsylvania), e
cerca de 500 dólares, se são de fora do estado. TUDO exatamente como no sistema
não virtual, presencial, sem demonstrar sequer consciência de que no plano
virtual o local de residência do aluno não deveria fazer a mínima diferença.
Repetindo: o que nos leva a
esperar que o que não funciona bem presencialmente vai passar a funcionar bem
remotamente, se a única variável diferente é a virtualização -- no resto o
modelo é exatamente o mesmo?
Eu, pessoalmente, não estou muito
interessado em repetir, virtual ou remotamente, erros de um modelo que não
funciona na sua forma presencial. Estou interessado em procurar um modelo
diferente. Mas qual será o modelo de aprendizagem que vai caracterizar a
sociedade da informação e do conhecimento? De uma coisa estou certo: não será o
modelo que caracterizou a sociedade industrial, cujo funeral presenciamos. Vamos
ter que inventar um modelo diferente – ainda que comecemos a partir do que hoje
existe e caminhemos gradualmente até alcançar um modelo diferente.
O modelo de educação que
caracterizará a sociedade da informação e do conhecimento provavelmente não será
calcado no ensino, presencial ou remoto: será calcado na aprendizagem.
Conseqüentemente, não será um modelo de EAD, mas, provavelmente, um modelo de
Aprendizagem Mediada pela Tecnologia (AMT). (Outros nomes dados a esse modelo
são “Aprendizagem Colaborativa”, “Aprendizagem Cooperativa”, etc.).
Um modelo de educação calcado na
AMT será tipicamente mateto-cêntrico, centrado no aluno, em suas necessidades,
em seus interesses, em seu estilo e ritmo de aprendizagem. Quem quiser
participar desse processo terá que disponibilizar, não cursos convencionados
ministrados a distância, mas, sim, ambientes ricos em possibilidades de
aprendizagem.
A Internet e a Web, ou seus
sucedâneos, certamente terão um papel fundamental nesse processo.
Um primeiro aspecto do potencial
da Internet e da Web para a AMT — o mais evidente — está no fato de que a
Internet, especialmente através da Web, caminha rapidamente para se tornar o
grande repositório que armazenará todo tipo de informação que for tornada
pública no mundo daqui para frente. Com isso, as pessoas vão estar recorrendo a
ela o tempo todo para buscar informações – não só professores e alunos, porque
essas categorias tendem a perder seu sentido, mas qualquer pessoa, esteja ela no
processo de aprender porque quer se desenvolver ou porque precisa realizar
alguma atividade em seu trabalho ou em sua vida particular.
Está ficando cada vez mais claro
que a principal tarefa que a escola hoje exerce, qual seja, a de transmitir,
através do ensino de seus professores, informações aos alunos, de forma
regimentada e padronizada, tende a se tornar desnecessária. As informações
necessárias para o aprendizagem das pessoas, para que elas desenvolvam os
projetos em que vão estar envolvidos, vão estar disponíveis na Internet e aos
interessados competirá ir atrás delas, não ficar esperando que professores as
tragam até eles.
A escola e os professores, se vão
ter alguma função nesse novo modelo, será no sentido de criar ambientes de
aprendizagem em que os alunos possam ser orientados, não só sobre onde encontrar
as informações, mas, também, sobre como avaliá-la, analisá-la, organizá-la,
tendo em vista os seus objetivos. Mas a Internet, através da Web, certamente
estará no centro de toda essa atividade.
Um segundo aspecto do potencial
educacional da Internet, em especial da Web, está no fato de que as pessoas
estarão recorrendo a alternativas remotas para obter a as informações de que
necessitam, mas essas informações não estarão embutidas em grandes e complexos
módulos, como os atuais cursos (cursos de duração de um semestre ou mesmo um ano),
mas, sim, micro-módulos, bem específicos, com objetivos bem definidos e precisos,
e elaboradas com o cuidado com que hoje se desenvolvem programas de televisão de
meia ou, no máximo, uma hora de duração.
Digamos que uma pessoa queira ou
precise aprender o essencial acerca de técnicas de negociação para enfrentar uma
complicada negociação com um cliente difícil: Vai procurar encontrar na Internet
um micro-módulo que, em uma ou no máximo duas horas, a ajude, de forma clara,
precisa e prática, a aprender o que ela precisa saber para se sair bem da
situação que tem que enfrentar.
Ou imaginemos que uma pessoa ande
tendo problemas com a administração do tempo, ou a organização de informações,
ou o gerenciamento de pessoal, ou a criação de gráficos em três dimensões em
Microsoft Excel, ou o comportamento de filhos adolescentes, ou a compreensão da
doutrina marxista da dialética, da teoria pedagógica de Rousseau, ou da teoria
política de Marsílio de Pádua, ou seja lá o que for. Haverá sempre na Internet
um módulo de informações feito sob medida, que vai ajudá-la a aprender o que ela
precisa ou deseja aprender, nem mais, nem menos. Se a pessoa, depois, desejar
aprender mais, pode buscar um módulo intermediário, depois um avançado, e assim
por diante, aprendendo sempre o que precisa saber quando precisa saber, na dose
certa. Vai acabar o ensino de grandes quantidades de informação que a pessoa não
sabe, naquele momento, para que serve e que, quando descobre para que serve, já
esqueceu. Informação não é algo que se possa estocar para um período de
necessidade: quando a informação não é útil, em função de necessidades ou
interesses reais, ela geralmente é esquecida.
Os micro-módulos de informação
vão ser eficazes porque não vão envolver apenas textos, mas também som e imagem.
Quando necessário, eles incluirão acesso a documentos, transferência instantânea
de arquivos, comunicação com especialistas no assunto via Correio Eletrônico,
assim aumentando exponencialmente a eficácia do processo de aprendizagem.
Um terceiro aspecto do potencial
da Internet e da Web para a área da educação é relacionado ao anterior. Mesmo
quando não há necessidade de informações, a tecnologia da Web pode ajudar as
pessoas a organizar as informações de que dispõem, através de seus sites na
Internet.
Um exemplo de como sites Web
podem servir de ponto de apoio na Internet para grupo de profissionais é o site
EduTecNet, que coordeno, e que fica no endereço (URL):
http://www.edutecnet.com.br. Esse
site está rapidamente se tornando um ponto de encontro dos profissionais da área
de Tecnologia na Educação: o local onde eles encontram as informações mais
atualizadas sobre as várias questões relacionados à área de Tecnologia na
Educação. Acoplado ao Grupo de Discussão EduTec, para o qual serve de quatro de
referência, o EduTecNet tornou-se, na realidade, uma rede de profissionais, mais
do que uma rede de computadores. Não hesito em dizer que essas experiências de
aprendizado colaborativo e cooperativo apontam na direção correta como modelo
para AMT.
É preciso que se registre, por
fim, que esse é um estágio tipicamente transicional. Com o tempo certamente
aprenderemos a usar a tecnologia com muito mais naturalidade e especificidade,
e, é possível, até mesmo os profissionais da educação se sentirão à vontade com
ela. Então, talvez seja possível desenvolver até mesmo uma nova escola
presencial, centrada no desenvolvimento de competências, que faça uso eficaz e
eficiente das tecnologias disponíveis (sempre mantendo-se em mente a
conceituação extremamente ampla de tecnologia apresentada atrás: tecnologia é tudo aquilo que o ser humano inventa, tanto em
termos de artefatos como de métodos e técnicas, para estender a sua capacidade
física, sensorial, motora ou mental, assim facilitando e simplificando o seu
trabalho, enriquecendo suas relações interpessoais, ou simplesmente lhe dando
prazer.
Campinas, 27 de Maio de 1999
[*] Trabalho publicado in Revista Educação da Faculdade de Educação da Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Ano III, Número 7, Novembro de 1999
(c) 1999 by Eduardo Chaves
Last revised: 02 May 2004
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